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Sem nome

Liberdade mesmo é de quem não nasceu. Não está preso em nenhum corpo, consciência ou deveres. Não precisa ser. Não se importa em ter. Talvez nem saiba o que é. Nada importa sua definição. Sem cor, religião, nacionalidade, profissão... E o principal, sem nome. Wellingtton Jorge In memoriam de Bruno — este poema, escrito antes de sua partida, agora ganha novo sentido como singela homenagem à sua memória.

Sexo

Falem o que quiser, mas o sexo com amor é a droga viciante do coração. Como uma roda-gigante — é maravilhoso. Esse movimento orgânico entre os corpos: um sobe, outro desce. Você sobe, eu desço. Alterando a visão, contemplação, prazer e adrenalina. Wellingtton Jorge

Se deixar viver

A vida tem sido apertada. Me fiz caber em você, mesmo sem espaços. Tornei-me pequeno. Tão pequeno — que desapareci de mim. E assim, nunca mais fui aquele. Fui me tornando chuva. Serena chuva — gotas que escorreram no meu rosto, no seu rosto... Pra se deixar de viver — aquela aliança. Wellingtton Jorge

Monjolo

Todos os relógios que tenho, ajustei. Mas, em tudo, chego atrasado. Não é falta de disciplina, organização ou responsabilidade. (Tudo isso tenho demais — minha terapeuta até me pede para me cobrar menos.) Contudo, a vida me deu isso. Vivo correndo para alcançar. Meu tempo voa. Se eu fosse de sangue aristocrata, sei que seria diferente. Meu sangue é Angola, Congo, Benguela, Monjolo, Cabinda, Mina, Quíloa, Rebolo... igual ao Jorge Ben.   Wellingtton Jorge

Calvície, a debochada

A resistência do homem e sua calvície é algo admirável. Ele luta até os últimos fios de cabelo, mesmo que não tenha quase nada... ainda penteia. A calvície leva fio a fio. Todos os dias, no espelho, ela debocha, tira um sarro: — Cabelo em pé? Não! Cabelo no chão! Bravamente, o homem se mantém firme em seu propósito. Todos sabem, veem e comentam (escondidamente). Chega o dia em que o homem supera seu âmago, raspa os remanescentes, se olha no espelho e procura a debochada: — Calma, meu senhor... embora não veja, a ti eu pertenço. Wellingtton Jorge Observações de um passageiro do seu cobrador de ônibus

Ônibus

Cheguei, passou. Dei sinal, nem vou. Tentei correr, mas era tarde. Espero, como sempre esperei. Quando era menino, me ensinaram que é preciso esperar o tempo das coisas. Até na Bíblia tem isso. Então, espero... Tenho esperado demais. Agora vou. Não era assim que eu queria — mas tem como ir neste que chegou. Cheguei, passou. Nem consegui chamar. Quando vi, já estava virando a esquina. Vou esperar novamente, como sempre faço — nem sei se faço porque quero, preciso, ou aprendi. E o que se aprende quando é menino se torna lei depois do tempo. Até penso que estou atrasado: quando chego, quase tudo já passou. Quando vou, já não importa mais. E quando tenho, não funciona mais! Tento recuperar o perdido, mas de longe vejo outros embarcando tranquilamente. Talvez seja assim: para mim, já passou. Para eles, tudo chegou. Wellingtton Jorge