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Um dia na casa da tia

Na arte de escrever não tenho prática, mas me arrisco, pois dizer o que sinto não é questão de certo ou errado. A questão é sentir e aproveitar o que a vida tem de melhor. Quando leio Rubens Alves com suas magnificas crônicas ou Lima Barreto com seus contos clássicos, poderia me intimidar no escrever, mas encontro força e motivação, para deixar as palavras expressarem meu olhar. 

Assim quero ao som de Caetano Veloso (Sampa), contar de um dia especial para mim. Nesse momento penso como essa música daria o melhor enredo para este dia. Pois uma coisa aconteceu em meu coração, quando eu cruzei aquelas portas. Coloque-me a rever a tia, prima, primo, tio e priminho (Gustavo). 

O tempo pode separar pessoas, quando as pessoas o permitem separar. Nesse caso, todos com uma única vontade de exprimir o tempo para que nele nossas vidas pudessem cruzar-se novamente. E foi assim, no fundo do quintal, debaixo do pé de uva, perto da balança que só na casa da tia existe. Olhei os quadros, com seus traços e profundidades únicas. Olhei o quadro de vó que na parede me fazia lembrar do cheiro e do abraço da Antonieta Alexandrina Bizerra. Não sei o nome do quadro, mas em uma outra crônica compartilho com vocês minha visão e afeto a essa arte. Volto aqui a falar do nosso encontro ou recontro, fico na dúvida de como nomear esse dia. Mas quem disse que tudo que é bom precisa de nome?.

Olhei para a tia e abracei-a, perguntei sobre cada coisa exposta em sua parede, e como uma curadora em sua exposição, foi compartilhando o que a levou a pintar. Aproveitou para mostrar também coisas que só ela possuía como um tesouro da família (nesse momento, meu coração era um vulcão e meus pensamentos não sabiam por onde percorrer, queria ali mesmo escrever tudo e sobre tudo). 

Almoçamos, conversamos, rimos, lembramos, rimos novamente e novamente. Abracei todos que conseguia abraçar, beijei e novamente abracei todos. Brinquei com o Gustavo e para cada sorriso, fazia questão de eternizar o tempo com nossas tecnologias do século XXI. 

Quando a tardinha chegou, fui até a sala e lembrei do órgão hammond. Ele estava empoeirado lá no canto. Pedi com todo carinho para tia, deixar-me vê-lo. Tirei a poeira, consertei a tomada, o abri, dei aquele carinho que todo instrumento gosta. Depois sentei, colocando uma mão em cada oitava e toquei um pouco de jazz. Me diz o que estaria  meu coração nesse instante. Amante de música, instrumentista por dedicação, jazzista por ideologia e artista por profecia. Nesse exato momento, todas as forças do universo se renovaram em mim. Levantei e disse para a tia que o amava e nunca mais esqueceria o dia que a casa da tia foi o pedaço do paraíso aqui na terra.

Wellingtton Jorge


Comentários

  1. Lindo👏👏👏. E que dia maravilhoso😍

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    1. Fico muito feliz pelo comentário e muito mais por dividir esse momento comigo.

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  2. Respostas
    1. Viver que é a perfeição rsrs e quando nos permitimos fazer isso com o outro, podemos ser completos.

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