Pular para o conteúdo principal

Vitis vinifera, a nossa raíz

"Meu amor, a vida passa num instante, e um instante é muito pouco pra sonhar"

Começo esse texto ao som de Oswaldo Montenegro, lançado em um instante que se fez raiz, instante que nutriu minha alma, como um vinhedo nas montanhas que busca lá nas profundezas os mais ricos nutrientes sentimentais para sua existência.

Hoje, lendo Graciliano Ramos, sua famosa obra Vidas Secas. Sim! Estou falando da Baleia, a cachorra mais conhecida do nosso nordeste maravilhoso, Fabiano e sua indagação se é bicho ou homem, e Sinhá Vitória, sua companheira. Me deparei com a seguinte frase:

"Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, Sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra".

Nesse exato momento, lembrei daquele senhor (Marcelo) que há poucos dias chegou com uma caixa de vinhos, com um ar de conhecimento regado de simplicidade e leveza, num encontro de amigos de amigos (19/12/24). Que, por ocasião, também era o lançamento do vinho Sig. Joseph, nome que leva a identidade e raízes familiares do sogro do Celso — ou Russo, como o chamamos.

E qual o ponto de intersecção entre Oswaldo, Graciliano e a noite de degustação de vinhos no local que já descrevi como rua de encontro em outro texto? Para quem chegou aqui agora, estou me referindo à Maghalitta, bendita Maghalitta localizada na Pires do Rio, 653, bairro de São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo.

Acho que já sei como gerar essa intersecção, talvez dizendo que, para muitos, a Zona Leste seria a terra seca que Graciliano narrou em seu livro. Mesmo assim, temos como tecer a esperança e nos alegrar em singelos momentos. Agora, com Oswaldo Montenegro, lembramos que se faz valer a pena os instantes. Mesmo que esses instantes não sejam tão claros assim, e agora, antes que me falhe a memória, introduzo de fato o que o senhor Marcelo compartilhou.

Entre taças e taças, aprendi que alguns vinhedos encontrados em regiões montanhosas possuem raízes de até 8 metros de profundidade na terra. Em busca de água e nutrientes, a árvore trabalha, desvia, persiste e continua até encontrar o que é importante. Raízes que não vemos, não entendemos. Contudo, teve que passar por instantes apertados, escuros e de escassez até ultrapassar a terra seca.

Ah, seu Marcelo, como os cabelos brancos lhe dão sabedoria. Sabedoria em saber compartilhar, e o como compartilhar suavemente, sorrindo, para que aquele instante entre amigos de amigos se tornasse um instante eterno.

Talvez seja insensatez deste que vos escreve, mas uma simples conversa pode ser tão profunda ao ponto de encontrar em nossas almas os nutrientes que precisamos para entender que tudo é tempo. Com ele, existem vários instantes que não são maravilhosos, momentos estes que nos prendem talvez em terra seca, ou rochosa. Ainda assim, lá no fundo encontramos o que há de melhor — e é isso que nos faz Vitis vinifera.

"Meu amor, a vida passa num instante, e um instante é muito pouco pra sonhar" 

Desejo que os nossos instantes sejam grandiosos, mesmo sabendo que são efêmeros.


Wellingtton Jorge




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A dança de Sophia

Braços abertos, olhar encantado - Vem minha princesa Can't Help Falling in Love Passos leves, reino a imaginar Realeza no nosso pequeno castelo Dançamos sobre a luz Compassos ditando os movimentos A princesa voa no colo E por breve momento o sonho se tornou realidade Grand finale ... o melhor abraço com a sútil voz - Eu te amo! Wellingtton Jorge

Caatinga

Esta terra seca sou eu, Árida, galhos finos, Envolto pelo sertão. As raízes são as veias que carregam pouca vida. Caatinga. Não existe verde. Se foi a esperança de chuva, De um simples brotar de grama. Até o calango já morreu. Wellingtton Jorge

Mozart e Miles Davis, Rubem e Wellingtton

Começo a acreditar que, ao se inspirar em uma determinada pessoa, você passa a vivenciar algo semelhante ao que ela vive. Talvez a espelhar seus atos, pensamentos e até mesmo suas paixões. Quando leio Rubem Alves, tenho a sensação de reflexo, sinto-me como se estivesse diante de um espelho. Não sou presunçoso a ponto de me comparar a ele, não sou tão iludido a ponto de comparar Ronaldinho Gaúcho com Endrick ou Rubem Alves comigo.  Mas é importante (para mim) observar o quanto temos em comum. Quando me deparei com sua crônica "Mozart" nas páginas do maravilhoso livro Ostra feliz não faz pérola, ri muito e lembrei de um episódio similar. Em uma ida rotineira ao Starbucks de Itaquera, pedi meu café expresso de brigadeiro, enquanto ao fundo tocava um repertório magnífico de Miles Davis. Ao pagar o café, perguntei à atendente quem havia escolhido o repertório. Empolgado para citar a música So What e me aprofundar ainda mais no assunto, recebi um balde de água fria. A resposta ines...