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Minha sessão de Psicanálise

Não sei se realmente tenho sessões de análise ou encontros com meu próprio abismo. A facilidade com que falo de mim diante da psicanalista — inclusive de meus demônios — talvez venha do fato de saber que não serei julgado, excomungado ou exorcizado. No entanto, sempre me pergunto: será que, ao expor esses demônios, quero realmente que eles se vão?

Nietzsche dizia que, quando olhamos para o abismo, ele também olha de volta. Talvez haja até prazer nesse diálogo silencioso, porque ao nos debruçarmos sobre ele encontramos semelhanças, reconhecemos igualdades e, assim, descobrimos que não somos tão únicos como pensamos. Há alívio em perceber que a dor que carregamos não é apenas nossa.

Nas últimas sessões, a reflexão girou em torno da criança que ainda fundamenta o adulto que sou. Certa vez, compartilhei um sonho: eu, adulto, voltava no tempo e entrava na casa dos meus pais. Minha mãe me reconhecia, não como menino, mas como homem; ao mesmo tempo, a criança em mim sorria. Eu a tomava nos braços e, com carinho, dizia: “Deu tudo certo, chegamos!”. Esse corte no tempo, no qual minha mãe via simultaneamente o filho criança e o filho homem, me fez despertar assustado, mas também emocionado. Chorei de alegria por reencontrar a criança que não quero perder nunca — aquela que sempre teve liberdade para imaginar sem freio.

Foi com Rubem Alves, meu eterno professor e espelho, que compreendi que a imaginação é uma necessidade vital. Ele dizia que toda criança precisa de um quartinho de bagunça na casa da avó para experimentar o velho, o assustador e o fascinante. Não tive todos os brinquedos que o “hype” da época exigia, mas criei muitos outros em minha mente. Assim, aprendi que a criação é um ato divino: quando digo “haja” com minhas palavras, é a imaginação que rompe a metafísica.

Certa vez, minha psicanalista me disse: “Você tem mais da psicanálise de Rubem do que imagina.” Essa frase me paralisou. Ela mostrou que as influências que nos atravessam são múltiplas, e que raramente reconhecemos como o presente é tecido por inúmeros “ontens”. Ontem, eu e você éramos apenas crianças. Crianças que sofreram o que não deveriam, mas viveram o que precisavam para se tornar quem são hoje.

Rubem Alves também dizia que o ser humano é a soma de todos os seus erros. Reconheço essa verdade: fracassei em muitas tentativas, mas agradeço a Deus por isso. Se tivesse dado “certo” em tudo, talvez hoje eu fosse um pastor, e não um poeta.

A vida é como uma melodia. Só existe quando preenchida por acordes que alternam tensão e resolução. O tempo é o juiz definitivo: ele mostra se uma música é boa ou não. Assim também acontece com a existência: apenas o tempo revela se, no fim, valeu a pena viver.

Wellingtton Jorge



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