Estava a poucos segundos na vida adulta.
Faltava-me a malícia para reconhecer os olhares.
Foi um tempo em que muitas coisas em mim
ainda não haviam se quebrado.
Você queria recuperar o tempo,
sentir-se viva.
Fui como cordeiro para o matadouro,
caminhando sem compreender
o futuro que me esperava.
Quando você me segurou,
colocando seus lábios de batom
a poucos centímetros dos meus,
todo o seu perfume inundou minhas narinas.
Como mulher,
sua força era quase superior à minha.
Você trabalhou para que cada parte do meu corpo
bombeasse mais sangue,
enrijecendo tudo o que era possível
na flor da idade.
Nos seus olhos, eu via algo diferente —
talvez uma mistura de vivacidade,
perfumada de lascívia de meia-idade,
sentindo meu coração acelerar,
enquanto, sinuosa,
você se encostava ainda mais em mim.
Você disse
que quando um não quer, dois não fazem.
Tentando amenizar sua culpa,
ou afirmando para si mesma
que estava certa.
Sua dopamina subiu,
assim como tantas outras coisas
naquele escritório, à tarde.
E tudo o que sobe,
a gravidade empurra.
Empurrou a consciência.
Empurrou a culpa.
Mas você sempre foi mais do que maquiavélica
e usou, das suas longas horas de vida,
todas as ferramentas
que o tempo lhe deu.
Para mim,
tudo foi uma bagunça.
Todos os sentimentos em um só.
Não havia nada para consertar,
nada a fazer.
Uma grande porção do que eu era
se quebrou.
E, ao se quebrar,
mostrou um novo caminho.
Wellingtton Jorge
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