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Mostrando postagens com o rótulo Poema

Derrubinho

Há dias em que não sou poesia. Como vinho seco com pedras de gelo, beterraba com mel, feijoada com ketchup. Nem sei o que sou. Bolo confeitado não me torno. Me perdoa, você que está aqui. Nem sempre o poeta é a poesia que lhe encanta. Wellingtton Jorge

Transplante corinthiano

Doutor, meu coração está meio que descompensando. Meu pai havia dito que esse dia chegaria. Sei que não há nada de errado comigo. Adoniran também sofreu disso, igual meu pai. Estou sofrendo, meu filho irá sofrer. É geneticamente transmissível. Todos os domingos intensifica; alguns dias da semana também. — Qual é o seu time, jovem? Sou corinthiano, doutor. — Desconfiava. Adoniran, Manoel Ferreira, Ruth Amaral e Silvio Santos vieram aqui. Saí com um diagnóstico de transplante corinthiano. “Doutor, não me engano… meu coração é corinthiano!” Wellingtton Jorge

Meu ouro marrom

No dia mais triste da minha vida, orei a Deus com um coração quebrando. Pedi que minhas mãos tocassem o ouro — este ouro marrom da sua pele de veludo, da sua pele que me leva tudo. Wellingtton Jorge

Garganta

Um senhor me disse, com simples palavras de sabedoria, que o ressentimento engorda a garganta, roubando de mim a canção que nasce da esperança todos os dias. Wellingtton Jorge

Ponto de ônibus

Cá entre nós, agora posso falar: eu nem pegava aquela linha de ônibus. Mas, depois que te vi, comecei a acordar mais cedo só para ter a chance de um dia mostrar esse bilhete. Desculpa a demora e o papel envelhecido. É que somente hoje você reparou em mim. Sou um pouco das antigas; me chamam de novo envelhecido. Gosto do papel e da caneta. Amo olhos nos olhos. E já faz muitos dias que amo você. Wellingtton Jorge

Eu e Cora Coralina

Li Cora Coralina, a conheci, vi sua infância. Foi uma menina estranha e rejeitada. Caía demais, joelhos sempre a sangrar. Quando um poeta escreve, nos versos, ele próprio pode se encontrar. Quando outro poeta lê , ali eles podem se amar. Não falo do amor Eros , mas no reflexo dos seres, o espelho atemporal dos versos, o narcisismo que nos habita e gera pertencimento à história do outro. Posso eu contar a história dela e fazer da minha o enredo? Posso dizer muito sobre Cora, e você aprender mais sobre mim. Somos simples, eu e Coralina. Família de sotaques, escassez no banquete da mesa. Mas a imaginação sempre foi um alimento diário. Nunca faltou, mas também não era de sobrar. Cresceu e viveu na simplicidade. E o sucesso chegou, não pelo ter, mas por ser. Seu nome já ficou; o meu há de ficar. Seremos um do mesmo. Já temos algumas coisas em comum: a pátria e o lápis; no meu caso, o smartphone. Gerações mudam e se reinventam, mas os sentimentos ficam a ...