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Meu espelho quebrado, poema de um luto

Quanto tempo dura um luto? Para quantas medidas de tempo se faz uma despedida? Quanto de mim se vai com aquele que foi, e quanto dele fica para os que ainda estão no caminho de ir? Outro tempo começou para mim agora. Do espelho que refletia seu rosto — hoje quebrado em três partes — reflete o meu. A vida quis assim. Tirana que és, levou tudo do que eu chamava de vó. Deixou só o neto. Embora não sendo mais o neto no físico, é na memória que posso voltar a essa condição. Não escrevo uma novela sobre o luto (Noemi Jaffe, sim). Sei que se passaram alguns anos desde o dia em que eu disse adeus sem ter certeza se ela me ouviu. Mas compreendi que é no espelho quebrado que posso olhar... e, olhando, vejo que aquilo que nos unia se quebrou em três partes — você, a morte e eu. Me recuso a consertar o espelho, pois a vida se recusa a consertar a morte. Assim, quebrados, todos nós vivemos de alguma forma. Wellingtton Jorge Após alguns anos da morte da minha avó, pude ...

Carro veloz (fast car)

Queremos a velocidade ao invés de uma brisa leve sobre o rosto. Com as janelas abertas avançamos os quilômetros num frenesi, numa loucura e ansiedade para chegar. Queremos o final, mostrar o que somos, levantar um troféu de melhor, o troféu do campeão. Quantas vezes me pego a correr, a dizer a mim mesmo "vamos logo, você precisa avançar, outros já chegaram...", quantas vezes não permito o choro brincar de escorregador em meu rosto, pois não há tempo para sentimentos.   Perdemos a capacidade de olhar para a estrada e aproveitar o canteiro, fazer um piquenique no acostamento, sabe porque? precisamos chegar, precisamos mostrar que já estamos por lá.  Gostaria de entender quem inventou a chegada, gostaria de voltar nesse dia e desfazer essa tal "chegada". Passei algum tempo da minha vida nessa procura por chegar, passei algum tempo na minha vida desejando passar rapidamente pela estrada, até descobrir que nada importa, nada pode sucumbir o trajeto.  Queremos avançar o t...

Poeta é Deus

Todos poetas no fundo queriam ser Deus Ter o poder nas palavras com elas criar, trazer a existência e ver que foi bom Conter em si o poder do atemporal Brincar de jardineiro e criar seus seres viventes Em palavras poder separar os mares e sustentar um mundo inteiro em suas mãos Todos os poetas sabem que escrever é ser arriscar Ter na palma da mão a criação Escrever a história, compor o ritmo da narrativa Ser glorificado no que criou Ser glorificado com o que criou Ser glorificado por ser um criador Wellingtton Jorge

Rubens Alves, minhas crônicas por suas crônicas

Anos atrás por acaso ou predestinação (nesse contexto, lembro-me de Santo Agostinho), conheci o Rubens Alves, não literalmente em carne e osso, mas o conheci.  Conheci sua vida, seus filhos, amigos e seu pensar. E quando isso aconteceu, conheci um pouco mais de mim.  Essa predestinação do conhecer-te, só foi possível, quando minha irmã encontrou um livro de crônicas no banco do metrô de São Paulo. Trazendo-o a mim, me  presenteou, assumo que de início não falei com Alves (hoje ele é um amigo e de alguma forma me ajudou até aqui, por isso tomo a liberdade de chama-lo de Alves). Estava naquele período conversando muito com Nietzsche, Drummond e Guimarães, além de ouvir os sábios ensinamentos de Chiavenato para as organizações.  Belo dia, ouvi sua voz a me chamar, sentei em minha sala para encontrar essa voz entre os livros. Espalhei todos no chão e fui procurar aquele que desejava falar comigo. Quando ali vi a bendita coleção de crônicas do Alves. Ainda no chã...

Duas vinte e quatro horas

Desde ontem tenho procurado  Escrever sobre meu dia de ontem Se passaram duas vinte e quatro horas Quando começo o próprio tempo apaga. Escrevi um soneto Falei do metrô de Itaquera Das lindas mãos da mulher loira De suas unhas vermelhas Seu olhar penetrante Me arrisquei a colocar um ponto final no quarto parágrafo O aplicativo não salvou  Poeta digital sofre assim, a falta de internet é o mesmo que não ter papel e caneta. Depois de mais uma vinte e quatro horas Escrevo tudo isso, em poucas palavras Como registro de uma irritabilidade com o destino por me levar cada escrito. Wellingtton Jorge

Loucura

Para ser louco precisa ser muito insensato! Loucura é o último grau da liberdade, Lá, nada importa nada impede de ser o que quiser ser, como quiser onde quiser com quem quiser Ser Pra ser, precisa querer no íntimo, acreditar que pode Quando se é,  Tudo ao seu redor muda louco não sofre de preocupação com o que os outros vão dizer. Wellingtton Jorge

Brasil

Existe um Brasil que eu moro Outro que eu olho E outro que eu participo No primeiro a pátria é amada Somos filhos deste solo O segundo é o real e perfeito Os idosos fazem Yoga em praça pública Os ricos são tão felizes  Este é o Brasil que belo, forte, impávido colosso, E no teu futuro espelha uma grandeza O Brasil que eu participo (teu seio), nos falta a liberdade, Desafiamos o seu peito a própria morte! Nosso sangue se torna petróleo Nossa força sustenta a pirâmide Os sonhos nos foram vendidos e mesmo em promoção não podemos comprar Entre outras mil És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo És mãe gentil, Pátria amada, Brasil!