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Minha sessão de Psicanálise

Não sei se realmente tenho sessões de análise ou encontros com meu próprio abismo. A facilidade com que falo de mim diante da psicanalista — inclusive de meus demônios — talvez venha do fato de saber que não serei julgado, excomungado ou exorcizado. No entanto, sempre me pergunto: será que, ao expor esses demônios, quero realmente que eles se vão? Nietzsche dizia que, quando olhamos para o abismo, ele também olha de volta. Talvez haja até prazer nesse diálogo silencioso, porque ao nos debruçarmos sobre ele encontramos semelhanças, reconhecemos igualdades e, assim, descobrimos que não somos tão únicos como pensamos. Há alívio em perceber que a dor que carregamos não é apenas nossa. Nas últimas sessões, a reflexão girou em torno da criança que ainda fundamenta o adulto que sou. Certa vez, compartilhei um sonho: eu, adulto, voltava no tempo e entrava na casa dos meus pais. Minha mãe me reconhecia, não como menino, mas como homem; ao mesmo tempo, a criança em mim sorria. Eu a tomava nos ...

Não sei de mim

Me dei conta que sei muito de você. Conheço o mapa do seu corpo, a xícara de café com leite vegetal, suavemente quente, a forma de passar a manteiga no pão. Sei de mim muito pouco. Fui esquecendo. Esses dias percebi que tenho uma pinta no braço. Disseram que era de nascença. Não sabia. Eu sei tanto de você e nada de mim. Sei de você, e nada sobre nós. Só sei de você. Wellingtton Jorge

Velha infância

No frio, há de brincar como criança. Esquentar as pernas no pega-pega, deixar aquecer a inocência na cantiga. Gritar, ser — apenas ser — e não pensar em como deveria existir. Velha infância, — Corra com eles para brincar. — Estou quase correndo para me esquentar. Como adulto, queremos permissão para avançar. — Lembre-se: criança não pede licença para brincar. Wellingtton Jorge

Quando a Vida desfila

 Um dia li Manoel de Barros: “Andando devagar eu atraso o final da Vida.” Que maravilhoso ler isso! O triste é que a Vida também o lê. E, sabendo disso, a brincalhona faz suas meninices: corre para alcançar alguns, mete a rasteira em outros, se esconde, atrasa o que não deveria atrasar, apressa o que não deveria existir. Essa menina é linda demais, e incontrolável — igual ao cavalo Spirit. Mandona e manhosa, tudo do jeito dela. Sabendo pegá-la, verá o quanto é leve. Há os que dizem que ela é pesada. Não afirmo, mas tenho minhas dúvidas. A vi em várias formas, igual a um desfile de carnaval: alegorias e fantasias diferentes passando na avenida, com o Tempo marcando. Seu pai é bravo, meticuloso e de poucas palavras. Enquanto a Vida brinca, ele acelera. Manoel de Barros tenta… mas, no final, é o pai quem organiza o fim. Wellingtton Jorge

Longe de Casa [minha menina]

Logo cedo, bem longe de casa, se despiu para o mundo e do mundo se vestiu. A cada pagamento, um pouco de si se esvaía. Para cada momento, um pouco do outro ficava. [minha menina] Na beira das estradas, ruas e becos, plantou presença. Se vende. Vejo medo em seu olhar. Vejo seu corpo lá, e seus olhos atentos pedem socorro! [minha menina] Ouvindo a canção, no disco antigo, a Esperança a escuta. Mesmo sem palavras, ouviu a dor em teus olhos. Na tarde de chuva, ela chorou. [minha menina] Wellingtton Jorge

Escancarar

O que me resta é o essencial. Foi tirado de mim o segundo passado. Não me presenteiam com o instante futuro. Não sou nada mais do que um pingo de inexistência na história do mundo. Se há um Deus, Ele não tem em suas mãos o nome de todos. Se não há Deus, tudo se explica. Buscamos pedras escritas, mantos enterrados numa cova, todo o saber. Tudo é um esquecido. Qual o sentido disso tudo? Por que há tantas coisas, seres, saberes, conheceres… e o que podemos conhecer, a não ser o que nunca conseguiremos compreender? Wellingtton Jorge

Sem nome

Liberdade mesmo é de quem não nasceu. Não está preso em nenhum corpo, consciência ou deveres. Não precisa ser. Não se importa em ter. Talvez nem saiba o que é. Nada importa sua definição. Sem cor, religião, nacionalidade, profissão... E o principal, sem nome. Wellingtton Jorge In memoriam de Bruno — este poema, escrito antes de sua partida, agora ganha novo sentido como singela homenagem à sua memória.