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Mundo, alma num corpo Imoral

Tantas nevoas brincam com a alma Tão inocente criança que foi jogada num corpo Procura estado, prender-se em átomo Ama a matéria e por vingança a domina Corpo sagaz que só, leva a fama de pecador Tão inocente criança que foi jogado num mundo Procura significado, sentido de ser Ama a inércia e por vingança agora descansa Mundo sagaz que só, criou nevoas Fez da alma inocente [ela que pecou no Éden] Do corpo réu [este expulso do Éden] Misturou a bebida entre o correto e o bom Trocou as taças de lugares Lá do fruto do conhecimento as nevoas findaram Sua existência. Wellingtton Jorge Para Nilton Bonder 

Bagunça

Das bagunças que carrego dentro de mim Sempre há um pouco de tudo Como um baú velho no quartinho dos fundo Na casa da avó Tem memórias, momentos e tormentos A poeira encobre, mas não desfaz a existência Do que lá dentro tem O cheiro de mofo misturado com naftalina Arquitetura gótica das teias de aranha Segurando a madeira velha Oca como os corações de alguns Mas é casa dos cupins Das bagunças que carrego dentro de mim Sempre há um pouco de tudo Euforia do primeiro beijo A primeira vitória do time da escola O primeiro emprego, o primeiro cliente O primeiro sexo e a primeira noite de amor A primeira vez que os olhos viram o Corinthians no estádio E a gratidão pela salvação Das bagunças que carrego dentro de mim Sempre haverá um pouco de tudo Incompreensão, gratidão e aprendizado. Wellingtton Jorge

Os lugares pra onde vão?

Sei que há uma beleza no horizonte Tudo que não posso ter  Se veste com a beleza do querer Uma montanha pintada de branco neve A curva do rio, a nau a flutuar O que não tenho, beleza há! Horizonte também é pra se olhar Ver o que lá no futuro o que se tem Acreditar que a passos longos ou curtos Todos os dias se dão até um horizonte fincar. Todos os lugares, todos ares  Depois do horizonte Pra onde vão? Será que o futuro se torna presente? Por que mais de um horizonte me prende? Olho pra frente engulo a seco O que há de ser, o que virá Tão simples assim de ver Difícil de aceitar, Como um retrato, tudo Desejo hoje no meu prato. Wellingtton Jorge

Folhas novas, canetas novas

Quantas vezes ouvimos que devemos recomeçar? É de se pensar nas inúmeras situações que nos falta fôlego e por algum motivo encontramos força para não desistir. Não quero falar aqui da capacidade que possuímos de seguir, mas se possível encontrar o espaço tempo entre o recomeçar e finalizar.  A vida é muito parecida com uma folha em branco (é o que dizem por ai). Acredito que seja sim, porém ninguém diz que uma folha riscada é uma folha ocupada. Cada letra nessa folha é a construção de vários acontecimentos. Não temos a possibilidade de deletar palavras uma vez que foram transferidas para o papel. E entre o espaço tempo de recomeçar,  dizem que devemos colocar um ponto final e virar a página. Percebo que quando escrevemos palavras com demasiada força no punho as letras marcam a próxima folha.  Agora pergunto, como escrever novas histórias se a vida já está marcada? Como seguir em linhas brancas se há traços a olho nu invisível, mas com um pouquinho de pó de grafite, como o...

Meu paraíso

Não tenho encontrado o paraíso na escrita Os versos fogem dos meus pensamentos Talvez seja isso o inferno  [Minha divina comédia] Não saber o que escrever Se penso, saio dele  Caminho no purgatório Se escrevo, ganho a esperança de encontrar minha Beatriz Wellingtton Jorge

Meu espelho quebrado, poema de um luto

Quanto tempo dura um luto? Para quantas medidas de tempo se faz uma despedida? Quanto de mim se vai com aquele que foi, e quanto dele fica para os que ainda estão no caminho de ir? Outro tempo começou para mim agora. Do espelho que refletia seu rosto — hoje quebrado em três partes — reflete o meu. A vida quis assim. Tirana que és, levou tudo do que eu chamava de vó. Deixou só o neto. Embora não sendo mais o neto no físico, é na memória que posso voltar a essa condição. Não escrevo uma novela sobre o luto (Noemi Jaffe, sim). Sei que se passaram alguns anos desde o dia em que eu disse adeus sem ter certeza se ela me ouviu. Mas compreendi que é no espelho quebrado que posso olhar... e, olhando, vejo que aquilo que nos unia se quebrou em três partes — você, a morte e eu. Me recuso a consertar o espelho, pois a vida se recusa a consertar a morte. Assim, quebrados, todos nós vivemos de alguma forma. Wellingtton Jorge Após alguns anos da morte da minha avó, pude ...

Carro veloz (fast car)

Queremos a velocidade ao invés de uma brisa leve sobre o rosto. Com as janelas abertas avançamos os quilômetros num frenesi, numa loucura e ansiedade para chegar. Queremos o final, mostrar o que somos, levantar um troféu de melhor, o troféu do campeão. Quantas vezes me pego a correr, a dizer a mim mesmo "vamos logo, você precisa avançar, outros já chegaram...", quantas vezes não permito o choro brincar de escorregador em meu rosto, pois não há tempo para sentimentos.   Perdemos a capacidade de olhar para a estrada e aproveitar o canteiro, fazer um piquenique no acostamento, sabe porque? precisamos chegar, precisamos mostrar que já estamos por lá.  Gostaria de entender quem inventou a chegada, gostaria de voltar nesse dia e desfazer essa tal "chegada". Passei algum tempo da minha vida nessa procura por chegar, passei algum tempo na minha vida desejando passar rapidamente pela estrada, até descobrir que nada importa, nada pode sucumbir o trajeto.  Queremos avançar o t...