Eram em torno de 15 remanescentes analógicos, buscando fazer parte da Revolução 6.0. Olhares sedentos por aquilo que estava para acontecer, assustados, desconfiados e atentos — elementos cruciais para quem já passou por ruas longas e relógios com mochilas de tempo.
Todos olhando, esperando o primeiro sinal para o fronte. Devidamente alinhados e engajados entre si, já sabiam por onde atacar. Analisaram a vulnerabilidade da presa, viram que ele estava só, a poucos metros de distância. Sussurros leves começaram a soar. Seria o sinal do ataque? Movimentos estratégicos com delay, nada de brutalidade. Um tipo de organização silenciosa, como tartarugas que, em um piscar de olhos, já estão a metros de distância com sua ausência de pressa, mas linda capacidade de continuidade.
Um grande estouro chegou àquele local. Cadeiras voaram para todos os lados, e todo o ambiente reverberou como se fosse uma explosão gigante, dando início a tudo.
— Boa tarde, turma, como vocês estão? Hoje o professor vai compartilhar tudo sobre Inteligência Artificial. Vamos nos organizando, pois temos muito para aprender.
Depois de um longo pequeno espaço de silêncio, pude então me apresentar e, percebendo a vulnerabilidade daquele grupo, olhei rapidamente para todos e lancei meu tiro.
— Boa tarde, turma... ou melhor, boa tarde, corinthianos!!!
Foi nesse instante que a grande revolução começou: barulhos indecifráveis, olhares fincando meu âmago. Tudo começou aí. Todos riram, aceitando a provocação; outros riram negando e levando suas objeções:
— Aqui é Verdão! Ganhamos de 3 a 0 do Santos ontem.
— São Paulo, tricampeão do mundo!
— Sou santista, melhor eu ficar quieto.
Aquela troca saudável de alfinetadas, risos e zoeiras que fazem parte de uma geração que não compreende bem o que uma inteligência artificial pode fornecer, mas entende que, para ela, tudo se torna ferramenta. Muitos acompanharam a mudança das TVs em preto e branco para as coloridas; outros colecionavam cartões para usar em aparelhos de comunicação da TELESP; tantos outros tiveram os primeiros sistemas de comunicação portáteis, que necessitavam de mochila para o transporte.
Aprenderam sobre Inteligência Artificial generativa, usabilidade cotidiana, cenários prováveis de fraude e informações falsas. Ao contrário do que todos desejam, o Tempo não estava descansando, e sim com muita pressa. A cada palavra que saía da minha boca, dez passos ele dava para o fim da aula.
Um cheiro de café bateu o sino no estômago, e todos entenderam que nosso horário havia terminado. Celulares e tablets ficaram sobre as cadeiras para a nossa última batalha cruel do dia: devorar amendoins, balas de canela e tomar café da tarde.
Wellingtton Jorge
Comentários
Postar um comentário